Quando dois mundos colidem - Hércules

on quinta-feira, 20 de maio de 2010
Parte I - Hércules

Minha cabeça doía tanto naquele instante que eu queria poder abrí-la e esvaziar todos os pensamentos revoltantes e pérfidos que me seduziam. Todavia, não era hora para isso. Eu precisava ser forte - mesmo sabendo que não era e nunca seria; eu precisava surpotar mais um daqueles jantares fúteis que minha família promovia.
Repúdio. Era isso que eu sentia por toda aquela alta sociedade, a qual, para a minha total e desprezível infelicidade, minha família fazia parte. Completos 'narizes empinados', que importavam-se apenas com os seus e nada mais. Para eles tudo era: minha família, minha casa, meu carro, meu endocrinologista, meu cirurgião plástico.
Infelizmente eu havia nascido e morado entre essa sociedade absurda. Mansões, festas, sorrisos falsos e traições que ninguém via, ou ao menos não comentava. Eu vivia em um mundo muito diferente de mim, e isso estava me matando.
Estava me matando porque eu sabia que eu não conseguiria alcançar as expectativas criadas pela minha família, simplesmente porque eu não criara essas mesmas expectativas dentro de mim. Meus dois irmãos mais velhos haviam feito tudo conforme o planejado desde que haviam nascido. Tornaram-se médicos importantes, tomando conta da clínica da família e casando-se com belas mulheres filhas de grandes empresários amigos de nossa família.
Tudo era premeditado. E eu não queria isso, de jeito algum.
Eu queria ser livre para fazer minhas próprias escolhas. Eu queria poder gostar do que eu quisesse gostar; fazer o que eu quisesse fazer. Mas as coisas não eram bem assim. Então peguei-me a pensar: Por que as coisas não eram como eu queria? Quem estava me impedindo de largar a faculdade de medicina ainda no primeiro semestre e sair viajando pelo mundo, sem roteiro? Até que alguém me chamou.
- Hércules, venha aqui - minha mãe estava me chamando, e ao seu lado estava uma mulher exuberante, linda e loira. O círculo estava fechando. Era sempre assim, ela me apresentaria à uma mulher linda e rica e nos casaríamos e viveríamos um casamento sem amor.
Mas eu não estaria sendo eu se optasse por seguir o que estava premeditado. Apesar de nem sempre fazer juz ao meu nome de herói, era eu a ovelha negra da família. Eu era o diferente, e para mim eles eram diferentes.
Não fui até a minha mãe. Não continuei naquela festa. Era hora de mudar, era hora de me desprender do meu mundo e ampliar meu universo.
Caminhei até o portão da minha casa, e no meio do caminho um dos convidados - o qual eu nunca havia visto em minha vida, mas possuía vestes muito bem adequadas para a ocasião -, me alertou:
- Cuidado garoto, alguns jovens estranhos estão andando pelas redondezas do bairro. A polícia já foi acionada e logo a paz será restaurada em nossa nobre vizinhança, mas é sempre bom previnir-se.
Sorri para o homem e saí de casa mesmo assim. Não havia ninguém na rua, que estava absolutamente calma, e o ar gélido fazia meus pulmões doerem ao respirar. Ao menos o clima estava melhor do que no jantar em minha própria casa. Fui caminhando pelo bairro, sozinho, refletindo sobre o que eu iria fazer em seguida. De uma coisa eu estava certo: eu não seria mais uma cópia do que meus irmãos foram, mais um modelo, seguindo e cumprindo os costumes de todas as gerações da família. Simplesmente pelo fato de eu ser racional o bastante para dizer não e seguir o que meu coração dizia. E ali eu estava completamente certo de que eu deveria ouvi-lo e aceitar o que ele sugeria, pois ele dava as cordenadas para a minha felicidade.
Sentei-me no banco da praça e deixei minha mente seguir seu curso natural. Até o ponto em que não pensei mais em nada. Minha dor de cabeça se fora e eu estava bastante sereno. Subitamente ouvi o som de um carro em alta velocidade aproximando-se, abri meus olhos com espanto e fiquei alarmado, afinal, que tipo de pessoa dirigiria um carro em alta velocidade às uma da manhã? Alguém muito doido, com certeza.
O carro então parou ao chegar mais perto de mim. Era um carro grande e preto, o vidro do carona estava abaixado. Talvez se não fosse aquele vidro abaixado, minha vida continuaria sendo a mesma vida robótica e premeditada de sempre. E meu destino estaria fadado a ser entediante e igual ao dos meus irmãos. Mas para a minha sorte o vidro estava abaixado, e eu pude ver aqueles olhos estonteantes e prateados, misteriosos e tentadores que me prendiam e me faziam ficar sem ar só de olhar. Posso dizer que foi ali que a minha droga de vida deixou de ser uma droga e passou a ser algo que eu só posso definir como animal.

1 comentários:

camilla disse...

adoreeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei!

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